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A casa de Saramago - Lanzarote Parte 3

imagem 01 - pormenor do exterior da moradia
acreditem ou não, hesitei um pouco em ir ou não ir. de verdade. sentia que ia incomodar, que ia ser uma daquelas visitas sem convite que aparece e fica para jantar, abusando da hospitalidade de quem a recebe. mas fui.
chegamos a Tías e circulamos pelas ruas, que nos pareciam iguais, até avistarmos o carteiro que nos indicou o caminho para a casa. estava já muito próxima de nós. depressa identifiquei o edifício da biblioteca... do outro lado da rua a casa.
as visitas tinham a duração de 30 minutos e tínhamos de aguardar que terminasse a anterior. olhei para a mais pequena, preocupada com a espera, e encontrei-a deliciada com um copo de água, numa daquelas máquinas de "sala de espera". "a Balalela tem xêde, mamã" e assim foi, durante os 15 minutos de espera ficou entretida com um copo de plástico e o encher e beber água, constante. entretanto chega um casal e um outro homem (fotógrafo aparentemente).
imagem 02 - pormenor da entrada no edifício, onde se vê o pátio que distribui para as duas casas
fomos recebidos por uma simpática senhora. não me pareceu uma guia profissional mas sim alguém que tinha contactado com Saramago. entramos na casa em conversa e assim foi toda a visita, uma conversa informal. adorei.
a casa onde vivia aparenta ser uma moradia unifamiliar mas é afinal a residência de duas famílias separadas apenas por um pátio, Saramago e Pilar, e a irmã e cunhado de Pilar. fazia sentido.
imagem 03 - vista da sala para o hall de entrada
ao entrar na casa sorri e emocionei-me. o interior respira e transpira Portugal por todos os poros. tapetes de Arraiolos no chão. cerâmica típica de várias zonas do país em tudo o que era móvel. muitos quadros de artistas Portugueses na parede. uma colcha de renda na cama. no jardim também não falta uma oliveira. muitas fotografias com Pilar. objectos oferecidos, com dedicatórias das mais altas personalidades. e, para espanto de muitos, um Cristo logo no hall de entrada. no escritório, dois grandes quadros destacam figuras bem conhecidas: Almeida Garrett e Fernando Pessoa.
imagem 04 - pormenor de um móvel do escritório, com várias fotos da família de Saramago

imagem 05 - o Cristo, no móvel da entrada, e cerâmica Bordalo Pinheiro

imagem 06 - o escritório

imagem 07 - cozinha... e a máquina de café.
o conforto e "sentimento de casa" que senti em todos espaços, culminou ao entrar na cozinha. fui recebida pelos cães, um deles o Camões, várias vezes referenciado em documentários por ter sido adoptado e baptizado com esse nome por ser cego. foi-nos dito que ali foram recebidas inúmeras personalidades, das mais diversas áreas e sempre lhes era oferecido café, português, que Saramago fazia questão de ter sempre em casa. e de seguida pergunta-me a simpática senhora: aceitam um café? ficamos todos surpresos... e todos aceitamos o convite. sentei-me na cadeira da esquerda (imagem 08), por baixo de uma parede com azulejos da Paula Rego (simpaticamente relembrei à guia o nome da autora dos azulejos). a mais pequena a brincar com os cães e a conversa continuava. sem pressas. sentia-me bem. aquele sentimento de "intromissão" na vida privada de alguém desapareceu com a primeira troca de palavras. senti que se tratava uma espécie de homenagem a alguém que, por todos ali presentes, foi querido e constituiu um referência, literária ou de vida. daí a conversa fluir, naturalmente (falei bastante, devo dizer... acho que a guia simpatizou comigo), daí a visita de meia hora ter ultrapassado uma hora de duração e terminou sem pressas.
imagem 08 - varanda que circunda parte da casa, com vista para o jardim, e que se prolonga para o lado onde vivem os cunhados de Saramago.

imagem 09 - secretária da Biblioteca e as inúmeras referências a elefantes

imagem 10 - exterior da Biblioteca... e uma oliveira trazida pelo próprio Saramago, ao seu lado durante todo o vôo, a receber-nos logo no pátio de entrada.
a biblioteca convida à leitura, é um espaço quase simétrico onde somos rodeados de livros, com uns grande e confortáveis sofás ao centro. a minha filha foi, tal como nos restantes dias de viagem, um orgulho. durante toda a visita ficaram espantados com a curiosidade com que percorreu a casa, com que identificava esculturas de cavalos que Saramago coleccionava (memórias do seu Ribatejo) , a forma doce (sempre doce) com que pediu se podia mexer o meu café, e a descontracção na biblioteca quando, ao ver-se rodeada de livros corre para o sofá, senta-se e grita "mamã, quero lê!!"
"una princesita preciosa. que niña preciosa tienes"
(e desculpem caso detectem erros no meu espanhol... é que a baba de mãe atrapalha).

foi uma semana fantástica. cheia de aventura, muita cultura, muito papo para o ar na praia, muitos mergulhos também. paisagens novas. pessoas diferentes. tempo para conversar. tempo para nós, os três. sem horários. sem agenda social. apenas usufruto total do mimo que por vezes acumulamos e ficamos sem tempo para o gastar, na correria dos ponteiros do relógio durante uma semana de trabalho. e que bom que foi chegar e ter outra semana por casa. se é verdade que custa regressar ao trabalho, também é verdade que estes dias são tão energéticos e revitalizantes, que as chatices ficam esquecidas e tudo aparenta ser de simples e fácil trato.
e sabe bem voltar a este espaço e receber as vossas palavras, sempre simpáticas, sempre motivadoras. fiquem por aí. eu agradeço:)

12 comentários:

  1. acabei de reler o post e corrigir alguns erros e repetições ao longo do texto. isto de escrever de madrugada tem as suas desvantagens...

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  2. hehe pois, as vezes os dedos não acompanham a mente

    mas gostei bastante, não conhecia tanta intimidade e gostei de ver :)

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  3. Ola gaja
    eu vi um documentario sobre a casa e fiquei com essa sensacao de intimidade de familia e nao como um museu que nao se pode tocar em nada, e tambem sabia disso de oferecerem um cafe Portugues :-))
    Adorei tudo acho que e' sem duvida um sitio a visitar
    beijinhos

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  4. Não fazia ideia. Achava que seria uma casa-museu e não uma "casa para amigos". O próprio facto dos cães ainda por lá andarem é tão mais familiar! :)

    Adorei. Quem sabe um dia também possa beber um café dessa máquina! :)

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  5. a ideia é a casa ser sempre a moradia da Pilar. ela agora vive em Lisboa porque está a preparar a abertura da Fundação Saramago na Casa dos Bicos.
    o meu receio inicial era por saber que ia entrar na casa de alguém e não um museu. mas foi tudo muito descontraído e informal.

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  6. Realmente uma visita mesmo especial!!!
    Que bom esta forma de receber, tão natural... (a cena do café fez sucesso num documentário que deu num jornal, animou a malta saber que havia café :D)
    Jocas

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  7. Belíssimo post! Que fotos maravilhosas! E como eu amava esse Homem. e amo, claro. A experiência deve ter sido marcante! E a princesa tão doce, mesmo. Um amor!! beijos nossos
    (ainda não marcaram a minha ida ao Porto, mas quando souber digo alguma coisa)

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  8. Adorei! Fiquei com vontade de saber mais e mais sobre Saramago. Mais uma vez, obrigada por partilhares. :)

    P.S. será que é desta que conseguimos marcar um almoço?! Estou em dívida para contigo, já que da última vez desmarquei-me.

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  9. Que bem que me soube esta viagem a Lanzarote! :)
    Adorei recordar Saramago! :) Obrigada!
    Beijos *.*

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  10. Que bom! Obrigada pela visita guiada, adorei ver as imagens e ler o teu texto, fiquei com imensa vontade de lá ir! Recordar Saramago deixa-me sempre um pouco emocionada... :) Beijinhos

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  11. Adorei este post! Há poucas semanas passou um documentário de jo´sé e pilar. Fiquei ainda mais fã do escritor!
    Bjs

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  12. Adorei este post! Há poucas semanas passou um documentário de jo´sé e pilar. Fiquei ainda mais fã do escritor!
    Bjs

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