O último dia da pré-Escola


Segundo a minha experiência, nos primeiros anos de vida de um filho, o maior desafio de ser Mãe tem a ver com as escolhas. Escolher o caminho de alguém, mesmo quando se trata da nossa própria filha, antes desse alguém saber dar os seus passos, não é fácil. No meu caso, penso sempre que estou a criar bases, a apresentar alternativas, para que, no futuro, seja ELA a decidir e optar de acordo com o que ela é.

Em relação à Educação Pré-Escolar eu sabia bem o que não queria mas faltava-me perceber se o que eu procurava era possível. Queria encontrar alguém que fosse o meu (meu e do pai) braço direito na construção da fundação daquilo que ela vai ser. Hoje, no último dia de aulas, tenho a certeza que encontrei essa pessoa.
A festa oficial de encerramento do ano lectivo, ainda em meados de Junho, foi, mais uma vez, um dia especial. Em torno de um recreio em terra batida, improvisa-se um palco com mantas e tapetes em torno do qual os pais se reúnem, fotografam, batem palmas e sorriem, babados, perante as actuações dos seus filhos. No final há sandes de porco no espeto, caldo verde, cerveja e bolos caseiros para se ir trincando enquanto fazemos visitas guiadas aos locais preferidos para brincadeiras. Ela mostrou-me o castelo onde gosta de brincar (uma grande floreira em cimento onde cresce uma árvore), levou-me à montanha russa (um monte de terra) onde suja as sandálias e apontou para o escorrega (a lateral de uma escada) onde rasgou as calças.
Fiquei muito feliz.

Na escola dela não há salas por cores nem idades, os mais velhos são os responsáveis pelos mais novos e tudo se reaproveita e recicla. Foi acompanhada sempre pela mesma Educadora que não lhes ensinou a decorar o abecedário mas todos eles sabem escrever o nome. Não lhes ensinou regras de matemática mas eles sabem somar quantidades, por exemplo, nas aulas de culinária. Cativou-os com experiências de Ciências e fizeram Yoga. Saiu com eles, a pé ou de autocarro, cidade fora, para fazer piqueniques, visitar os Correios, o Cinanima, o Festival de Marionetas, o Museu da cidade, o Campeonato de Surf, a Biblioteca, uma actividade noutra escola ou desfilar pelas ruas, no Carnaval. Também foram a Serralves, a uma vacaria e ao Museu da Ciência, em Aveiro. Na escola plantaram um horta e interagiram diariamente com os meninos da Educação Especial. Do pouco fizeram muito. Tornaram-se crianças responsáveis e amigas. Tudo isto com um orçamento e recursos muito reduzidos contornados com muita criatividade e vontade de FAZER.
A Educadora desempenhou a sua função: EDUCAR. Parece óbvio mas é tantas vezes esquecido. No próximo ano sim, vai ter uma Professora e não uma Educadora, que a vai ensinar como se faz isto e aquilo, com técnicas e regras, mas vai ter como base a curiosidade, os valores e a vontade em Saber que desenvolveu nestes últimos anos.

Acredito que o que eu esteja a escrever não seja uma novidade para a maioria das pessoas que estão na mesma fase que eu, ou que se recordam desta fase, mas eu tinha de me alongar neste tema, tinha de deixar escrito o meu grande OBRIGADA ao trabalho da Educadora, o meu voto de confiança na Escola Pública. Tinha de deixar escrito, para a minha filha mais tarde recordar as brincadeiras com os primeiros grandes amigos, a Matilde e o Ruizinho. Para eu um dia recordar a segurança que senti, nas primeiras semanas, quando a minha filha se despedia de mim com um choro sentido e eu a passava do meu colo para o colo da Educadora, tranquilamente. Para eu nunca me esquecer das mãos dela ao chegar a casa, com as unhas entranhadas de tintas e plasticina ou quando, com três anos, me disse o significado e a importância de Partilhar. Para que ela perceba que também eu aprendo diariamente com ela e que, eu e o pai, vivemos e sentimos como ela todas estas novidades e aventuras.
Os três de mãos dadas. Seguros das nossas escolhas.
Bom fim de semana.

6 comentários

  1. Oh Marta… lá estou eu a chorar… hoje não pude ir deixar a minha filha no último dia da pré. Fiz as minhas despedidas ontem.

    Só tivemos esta educadora maravilhosa este ano (o ano passado era assim assim) mas num ano fez a diferença. As palavras emocionadas que deixou aos pequenos no dia da festa deixaram-me em lágrimas (sou chorona já percebeste não já?)…

    É giro ver os espaços onde eles vivem tanta coisa… a minha leva-me muitas vezes à sala 'só' para ver as novas estrelas penduradas no tecto ou o desenho da primavera…

    Foram felizes ali, agora lá vamos nós com um nózinho no peito mas a certeza que elas vão ser felizes quando derem o próximo passo também…

    Bjs xx

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  2. Paula, só para o caso de teres dúvidas, também eu já encharquei os olhos com água ;)
    Venham os próximos passos :)

    SAV, a próxima és tu ;)

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  3. Que bom que assim é minha querida. Não sendo mãe, lembro-me perfeitamente dos receios e angústias que senti em cada nova etapa da vida da minha irmã mais nova.

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  4. Dás cabo de mim, caraças.
    Verdade, sentimos mesmo um nó na garganta e orgulho ao ouvi-los descrever o que fizeram, o que aprenderam.
    São a nossa razão de ser, sem dúvida.
    Força nessa nova etapa!

    Paulinha, és uma foooofaaa! Força também!

    Beijinhos <3

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  5. Ainda bem longe desta fase acho que não me vou esquecer deste texto! :) Um dia pergunto-te em que pré-escola devo inscrever o meu filho/a :D

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