Infância: FUNERAL DE PÁSSARO


Com a chegada da primavera, era muito comum eu sair de casa e encontrar um pássaro morto à porta. Ainda sem penas, de olhos roxos, caíam do ninho enquanto se esticavam para tirar a comida do bico da sua progenitora. Nenhum de nós, primos, conseguia ficar indiferente. Havia brincadeira para um par de horas.

A primeira coisa a fazer era pegar numa folha, com tamanho e beleza suficiente para ser a urna. Lembro-me de olhar atentamente para a pele do bicho. Era muito transparente, viam-se as veias e alguns órgãos internos. O bico era de uma delicadeza deslumbrante.
Depois disso, escolhíamos o local, fazíamos um buraco, construíamos uma cruz com dois paus e enterrávamos o animal, enquanto eu entoava o som da marcha fúnebre. 

Voltei a fazer isso quando encontrava um animal morto aqui na horta mas a minha filha pedia para eu parar com "essa música super triste que me faz chorar!". Há pouco tempo, encontrei um gafanhoto, seco e morto, embrulhado num guardanapo de papel, na mochila da escola. Disse que o encontrou no recreio, tentou salvá-lo mas não conseguiu e por isso, lembrou-se de o enterrar na nossa horta. 
E eu, feliz, pude entoar a marcha fúnebre até ao fim.

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