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O dia em que saí de casa


Depois de uma década com horário fixo, o primeiro dia em que entrei no escritório de minha casa para trabalhar foi fantástico. Organizei armários e gavetas, adiantei trabalho e não saí de casa todo o dia, feliz da vida. Mas depois repeti o mesmo nos restantes dias da semana. 

À mesa de jantar, orgulhosamente contava como tinha trabalhado todo o dia. Queria provar que era "profissional", que me esforçava e que o meu plano ia resultar, até que o meu sábio marido me confrontou com uma pergunta assustadora: "Mas nem saíste para tomar o teu pingo a meio da manhã?"

Não, não saía de casa. Nem tinha esse cenário como possível. Tinha de trabalhar - muito - porque o final do mês me assustava. Me petrificava. Continuava a fazer as compras para a casa em horário pós-laboral, no máximo na hora de almoço.

Bastou uma semana neste ritmo para sentir as ideias a fluir muito mais vagarosamente, a motivação para o trabalho a diminuir e, inclusivamente, a questionar a minha capacidade de gerir o meu dia. Foi nesta altura que percebi que não estava a gerir nada de nada, estava a repetir hábitos.

Aos poucos, comecei a organizar-me de outra forma. Quem trabalha a partir de casa sabe o quão rápido passamos de um dia bem gerido para 24horas a escaparem-se pelo meio dos nossos dedos (a pressão de uma cama por fazer ou louça para arrumar mesmo ali ao nosso lado é brutal). Organização e planeamento é mesmo a única solução mas isso significa gerir não só o trabalho mas também tarefas e compromissos pessoais. 

Hoje em dia, no final de cada semana organizo a seguinte. Há tempo para comprar frescos logo pela manhã ou para ir combater a hérnia no Pilates e há um dia em que concentro reuniões e compromissos fora da cidade. Quando as ideias não fluem, pego num bloco e nas aguarelas e vou pintar para as dunas, ou simplesmente fotografar. Ao regressar ao escritório despacho o trabalho muito mais rapidamente do que se ficasse a forçar ideias ou contrariar a falta de vontade. Se for necessário trabalho mais um bocadinho depois de ir buscar a minha filha à escola ou depois de a deitar. Todos os dias faço uma pausa para tomar um pingo e passear a cadela. 

O dia em que saí de casa foi o primeiro passo para um dos meus objetivos de vida: fundir trabalho com estilo de vida.  O segredo é controlar o medo, arriscar, aprender com os erros e seguir em frente (ou numa outra qualquer direção). Ou então é só ter em casa a pessoa mais incrível, que me dá força quando tenho quase certeza que não sou capaz.*

*isto não é uma declaração de amor, ele continua a ser muito, muito chato quando não me deixa fazer compras por impulso. 

2 comentários:

  1. Acredito que o abismo da liberdade também acabe por gerar algum pânico. Mas claro, tudo se controla e aprende esse gere. Nada como o fazer com alegria :)

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  2. Verdade. Mesmo assim é ainda um desafio e ainda uma aprendizagem.
    Cada vez com melhores resultados ;)

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