100 DAY PROJECT - 10/100

 imagem do #100dayproject que podem seguir no meu instagram: @martabsousa

O projeto de 100 dias dedicados às minhas colagens está a surpreender-me. Tornou-se numa rotina criativa que muito me tem agradado. Inicialmente todas as colagens tinham um título e apesar de - secretamente - continuarem a ter, resolvi guardá-lo para mim e deixar-vos interpretar as composições de forma mais pessoal e livre.
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As primeiras 10 estão concluídas, com uma pausa para uns dias absolutamente inspiradores, no vale do Douro, onde pude contemplar paisagens que quase pareciam pinturas Impressionistas. O nosso Norte nunca desilude e será sempre um porto seguro e um lugar onde nunca nos cansaremos de voltar. 
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Curioso ver como as últimas cinco colagens são memórias autênticas desses dias, expressas nas cores e formas que povoam o meu inconsciente. Este desafio está a ser um excelente exercício de libertação e de encontro da minha linguagem. Super curiosa para saber o que aí vem. 

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Road Trip na Catalunha - O Triangulo de L'Empordá

O Triangulo de Empordá, é uma figura geométrica que surge no mapa ao ligarmos as localidades de Púbol, Portlligat e Figueres, região de Empordá, na Catalunha.  Foi nesta área que nasceu, cresceu, criou e morreu o pintor Surrealista, Salvador Dalí. Os seus bigodes e a forma excêntrica (e egocêntrica) como viveu a vida podem ser a sua principal imagem de marca mas a sua vida foi muito mais do que isso. Foi uma relação muito próxima com a sua terra, as paisagens, a luz, a arquitetura e a gastronomia, e um amor controverso pela sua musa Gala. 

Gala era uma mulher de origem Russa, 10 anos mais velha que ele e durante todo o casamento teve vários casos extra conjugais com rapazes mais novos (e até com o ex-marido). Ainda assim, Dalí ofereceu-lhe um castelo em Púbol, onde ela passava o período de verão, com quem entendesse. Quando Gala morreu, Dalí deixou imediatamente a casa onde viviam, em Portlligat, entrando em profunda depressão, ficando a viver numa torre do Teatro-Museu, em Figueres, até à sua morte.
O corpo de Gala foi embalsamado e enterrado (num vestido Dior vermelho) numa cripta no castelo de Púbol. Ao seu lado está outra cripta, com o nome de Dalí... vazia.  Perto da sua morte, o artista decidiu construir um mausoléu numa das salas do Teatro-Museu, e ficar para sempre na sua terra Natal: Figueres. Morreu em 1989.

imagem via BCN4U NEWS 

Fui aborrecida? Achei necessário este breve resumo. Ajuda a entender o nossa opção de voltar a esta zona do globo. Fiz este circuito há cerca de 12 anos, com o meu marido, mas na altura não conseguimos entrar na Casa Dalí, e como ficamos fascinados pela história e pelas paisagens da região,  resolvemos voltar com a nossa filha. Como não?

na imagem: Teatro-Museu Dalí, em Figueres

Estar no Teatro-Museu de Figueres é entrar no universo Dalí. Completamente. O edifício, construído sobre um antigo teatro, foi pensado, projetado e inaugurado pelo próprio artista e constitui a sua maior obra de arte. Aqui podem ver pinturas, desenhos, esculturas mas também móveis, jóias e murais, de sua autoria. Acima de tudo, preparem-se para entrar num edifício vermelho, com ovos gigantes na cobertura, com paredes forradas com pães. Permitam-se entrar num mundo imaginário, num sonho de outra pessoa, onde espigas de milho são o cabelo de personagens nunca vistas, e uma série de lavatórios decoram o pátio central em torno de um barco e um cadillac (ambos presentes de Dalí para Gala). O único conselho: deixem as ideias pré concebidas bem longe. Aqui não há lugares comuns. Tudo é nunca visto. Tudo é Dalí. 

na imagem, interior do museu: sala Mae West e o teto do Palácio do Vento

O teto da sala "O Palácio do vento" é deslumbrante. Perdemos algum tempo a visualizar todos os detalhes. A obra de Dalí está cheia de "perdidos e achados". Esta sala é uma alusão ao vento que se faz sentir na zona de Empordá e representa duas figuras, ele e Gala, à primeira vista suspensos nas nuvens, no céu mas trata-se de uma ilusão visual porque o céu é na verdade terra e a terra é mar. As duas figuras espalham uma chuva de ouro sobre os visitantes.

na imagem: pormenor do exterior do Teatro Museu; interior da cúpula; pormenor do pátio central.

A Catalunha, no geral, é uma região apaixonante. Se o Dalí foi o ponto de partida para o planeamento da nossa viagem, descobrir as praias da Costa Brava foi outro dos motivos. As ilhas Baleares não estão longe, o Mediterrâneo nunca desilude e é mesmo possível encontrar pequenas enseadas, as famosas Calas, por entre os recortes da costa.

nas imagens anteriores: praias e costa na zona de El Port de la Selva

Entre El Port de la Selva e Roses, as estradas são lentas e prazeirosas. Em Cap de Creus podemos ver as formações rochosas cujas formas deformadas reconhecemos nas pinturas de Dalí.
Em Portlligat encontramos a sua casa. Dalí comprou duas casas de pescadores, nessa pequena vila, e foi aumentando, até adquirir um total de sete, e um olival em anexo. Se no exterior, apenas os gigantes ovos na cobertura nos fazem suspeitar que não é uma moradia comum, o interior tira todas as dúvidas. Ali só pode ter vivido Salvador Dalí.

na imagem: Casa Salvador Dalí, é a construção branca ao fundo, com o olival do lado esquerdo da imagem.

As entradas têm de ser adquiridas antecipadamente, com data e hora marcada. Isso significa que estavam entre 10 a 20 pessoas na zona (ou então tivemos sorte) o que torna a visita ainda mais especial.
A pitoresca baía, onde flutuam pequenas embarcações era o cenário de Dalí desde o seu estúdio de pintura e do seu quarto. 
na imagem: baía de Portlligat

O interior da casa é um labirinto de cenários, emoções e atenção ao detalhe, poderei dizer obsessiva, criada pelo artista. Somos recebidos por um Urso embalsamado, oferecido por um amigo do casal e em todo o percurso há ramos de flores amarelas secas, as preferidas de Gala, que espalham perfume por toda a casa. Em todas as divisões há detalhes sem fim, desde ossos, conchas, esculturas, aos três cisnes de estimação do casal, que foram embalsamados e nos recebem de asas bem abertas na sala de leitura. E há livros, muitas estantes com livros, por toda a casa.

na imagem: o Urso no hall de entrada; pormenor do estúdio de pintura, onde o artista acumulava uma série de imagens e objetos que depois utilizava nas suas obras.

na imagem: pormenores de duas salas no interior da habitação

O estúdio de pintura foi abandonado pelo pintor em 1982, quando a mulher faleceu, deixando duas grandes telas por acabar. Desconhecia um pormenor curioso. Dalí gostava de pintar sentado e mandou construir um elevador para as telas, numa das paredes do estúdio. Isso permitia baixar as telas abaixo do nível do pavimento, para ele pintar as zonas mais altas... sentado no sofá. 
Ao lado do estúdio há uma sala cheia dos mais variados objetos, que desenhava e utilizava nas suas obras. Uma cave com os materiais de pintura, e uma pequena sala escura onde pintava os quadros mais pequenos e detalhados com lupa. Foi muito especial estar naquele lugar.
na imagem: o estúdio de pintura

nas imagens: o acesso à cave com os materiais de pintura;  detalhe do elevador para telas

O quarto é constituído por três antigas habitações, todas com vistas para a baía, onde o casal tinha as camas, uma para cada um, zonas de estar, quartos de banho separados, e um vestiário para a Gala, cujos armários estão forrados a fotografias fantásticas, do casal, dando depois acesso a uma pequena sala redonda onde só Gala podia entrar, com sofás a toda a volta e uma acústica surpreendente. Voltando à zona do quarto, há espelhos que Dali colocou em pontos estratégicos de forma a que, ainda deitado na cama, conseguisse ver o nascer do sol (e ser o primeiro espanhol a fazê-lo, já que está na ponta mais oriental da pensínsula). As gaiolas dos pássaros que Gala adorava e uma mais pequenina, onde Dalí tinha um grilo porque gostava do som. 
na imagem: pormenor do quarto do casal

Depois há o acesso ao exterior, ao jardim, ao pombal, ao olival e à piscina que são sempre surpreendentes. Como acho que poderei ter exagerado na descrição da casa, vou partilhar convosco as imagens do jardim, porque acho que dispensam palavras. No final vou colocar alguma informação que vos possa interessar, inclusivamente do castelo de Púbol, que desta vez optamos por deixar de parte, caso vos interesse fazer o triângulo Daliano! 
Esta rota é uma forma diferente de conhecer esta região e de nos ajudar a perceber a lógica por trás da óbvia obsessão do génio Dalí. Para isso, é preciso estarmos dispostos a aceitar a diferença e a novidade, porque este mundo não é o nosso mundo, é o dele, e definitivamente não há lugar para "mais do mesmo". 
na imagem: acesso ao jardim

nas imagens: pormenor do pombal e escultura gigante no meio do olival
nas imagens: detalhes da zona da piscina

na imagem: sofá na zona da piscina

na imagem: vista para a baía, do jardim

INFORMAÇÕES:

Sugestão: Não é possível visitar as três localidades num só dia. Aconselho começarem pelo Teatro-Museu de Figueres e depois optar pelo castelo ou casa. Como a casa fica numa região natural muito bonita e com diversas localidades com praia, podem fazer Figueres-Púbol e num outro dia a região de Cap de Creus e a casa. Fica a sugestão.

Estadia: Ficamos hospedados num hotel na Costa Brava, não em Barcelona. Por curiosidade, a viagem de Barcelona a Portlligat demora cerca de duas horas. Na minha opinião, e pela variada oferta que existe, há vantagens em ficar mais a norte. 

CONTACTOS ÚTEIS*:

Teatro-Museu Dalí - FIGUERES  link

Casa Salvador Dalí - Portlligat  link

Castelo Gala e Dalí - Púbol   link

*compramos os bilhetes com data e hora marcada, antecipadamente.

O que é uma serigrafia?

imagem da esquerda: composição matriz, que escolhi executar com colagem, ponto de partida de todo o processo
imagem da direita: na mão a raclete de serigrafia sobre o quadro com a tela

Depois tanto vos falar sobre a minha primeira serigrafia, gostava de partilhar convosco todo o processo e falar desta técnica que tanto me agrada.

A serigrafia é uma obra gráfica original, de edição limitada e irrepetível. Cada exemplar é numerado e assinado pelo artista, que deverá acompanhar todo o processo. 
Existem algumas variações no processo de serigrafia (stencil, desenho direto, fotolito...) mas a base de trabalho é um quadro onde é esticada uma tela em nylon que recebe as diferentes camadas de tinta, uma cor de cada vez. Eu fiz desenho direto, o que significa que cada cor era desenhada, em negativo, com a cola azul, na tela. Cada erro poderia significar apagar todo o quadro e voltar a fazer de novo.

imagem da esquerda: negativo pintado na tela, com cola azul
imagem da direita: negativo após passagem com tinta preta

Trabalhei sob orientação da minha professora de Oficina de Artes do 10º ao 12º ano, um reencontro  muito especial, passadas duas décadas sem nos contactarmos. Foi com ela que a minha turma experimentou e aprendeu várias técnicas de expressão plástica e História da Arte ensinada com distinção. Mas voltemos à serigrafia.


imagem da esquerda: colocação da tinta preta no quadro
imagem da direita: pormenor da raclete que transfere a tinta para o papel

O que exige mais perícia, em todo o processo, é o acerto de cada negativo, de forma a que cada mancha de cor saia no local exato e não uns milímetros ao lado. Falando ainda sobre a cor, todas foram executadas a partir das cores primárias, trabalhadas em cima da mesa, com uma espátula e diluente. A consistência certa era depois conseguida utilizando "blue spirit", até a tinta "fazer estrada". Nem muito líquida, nem muito pastosa.
imagem da esquerda: as duas camadas de cor iniciais, dois tons de rosa
imagem da direita: detalhe da aplicação da mancha de verde
imagem da esquerda: últimos acertos para aplicação da cor final, o preto.
imagem da direita: passagem do preto no quadro

Iniciei o processo com 25 folhas (tamanho A2) e terminei com uma série de 20. Não foi nada mau perante tanta novidade e uma disponibilidade de tempo, de minha parte, que não era a ideal. Cada cor implica um desenho de negativo, o fabrico da cor pretendida, a passagem da cor (folha a folha) para o papel e a limpeza final do quadro. Na cor seguinte, o processo repete-se. Por tudo isto, com feriados e compromissos à mistura, foi um processo que teve início em Novembro de 2017 e terminou em Junho de 2018.
imagem da esquerda: rede de secagem das folhas após aplicação da última camada de cor
imagem da direita: detalhe da serigrafia acabada, ainda a secar

Após aplicação da cor numa folha, esta é colocada a secar numa rede própria.
No final, cada serigrafia foi numerada e assinada, a lápis, por mim. A primeira da série foi oferecida à minha deliciosa filha, a origem das minhas ideias mais bonitas e coloridas.
A serigrafia chama-se "O rapaz dos calções às riscas" e estará (brevemente) disponível na loja online, sendo enviada sem moldura, num canudo bonito, decorado por mim.


Com tecnologia do Blogger.