A pressa de crescer depressa

17 setembro 2014

imagem via Pinterest

Deitei-me de barriga para cima e ela de barriga para baixo, sobre mim, com a cabeça no meu peito. O primeiro dia de escola tinha corrido muito bem mas à noite, apesar do cansaço, o sono não queria chegar. Conversamos. 
Sobre a nova escola, a nova sala, o novo professor, os novos colegas, o novo conteúdo da mochila e a desilusão de, afinal, não ter escrito nada nos livros novos. 
Disse-lhe para não ter pressa.
Que se os dias passarem demasiado rápido, em breve já não ia ser fácil deitar-se em cima de mim a conversar. Que naquele minuto, todos os meninos se sentiam como ela. Que era normal não saber como vai ser o dia seguinte mas que é isso é que é interessante e até divertido. Que amanhã ia chegar a casa com uma novidade, e depois outra, e depois outra. Que um dia, ao caminharmos pelas ruas da nossa cidade de mãos dadas, ela ia conseguir ler palavras. Mas que tem de ser a este ritmo. Lento.
Cantei-lhe os Clã: "esticam pernas, crescem braços, pés, cabelos, mãos e pêlos e eu, sinto-me à toa por dentro" Disse-lhe que todos aprendemos a crescer e que só assim conseguimos ter, também, tempo de perceber quem somos e o que queremos ser.
Disse-lhe que estar no 1ºciclo não é mais difícil, desde que ela esteja atenta e goste de ouvir o que o professor lhe diz, tal como nos anos anteriores ouvia a Educadora.  Disse-lhe que podia continuar a levar as póneis na mochila da escola.
Ela, antes de adormecer, disse-me que eu a fazia sentir calma e que, por isso, me ia adorar até eu ser velhinha. Que ficava feliz por saber que ia demorar muito tempo até eu ser bisavó.

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